Presidente do BC, Galípolo indicou que aumentos na taxa de juros podem seguir além do já previsto
Juros criminosos – Deputados criticaram a política de juros altos praticada pelo Banco Central, que segue inalterada – e até intensificada – na nova gestão de Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Lula para comandar a autoridade monetária responsável por arbitrar a taxa básica de juros (Selic) no país.
As críticas foram feitas durante sessão solene na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (1º) em homenagem aos 60 anos do Banco Central. Galípolo discursou no evento e indicou que a sequência de aumentos da Selic pode ir até além do que já estava previsto devido ao “dinamismo excepcional” da economia brasileira.
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Ele citou como exemplos de “dinamismo” a queda da taxa de desemprego e o crescimento do rendimento das famílias, indicadores positivos para os trabalhadores que a diretoria do BC vê como riscos para a inflação.
“Talvez os canais de transmissão da política monetária não funcionem aqui no Brasil com a mesma fluidez que costuma funcionar em outros países, e que eventualmente você precise dar doses maiores de remédio para conseguir o mesmo efeito”, disse Galípolo na Câmara.
No entanto, parlamentares da base do governo e até da oposição apontaram os efeitos nocivos dos juros altos para a economia e para a população brasileira.
O deputado Mauro Benevides Filho (PDT-CE) ressaltou que o atual governo reduziu a dívida em relação ao PIB entre 2023 e 2024, mas a elevação dos juros acaba com qualquer esforço de corte de gastos, uma vez que o custo da dívida pública fica muito mais alto a cada aumento.
“Em dezembro, o Congresso Nacional cortou R$ 49 bilhões de despesas, mas no mesmo dia o Banco Central aumentou a Selic em 1 ponto e fez o ‘forward guidance’ (orientação sobre o que esperar da política de juros futuramente) de mais 2 pontos. Isso acabou representando R$ 150 bilhões a mais na dívida”, afirmou.
O deputado Luiz Carlos Hauly (Pode-PR) disse que o Banco Central “mente” para o povo ao culpar o déficit público e comparou a situação da economia brasileira com a dos Estados Unidos. Atualmente, o país tem uma dívida de mais de 36 trilhões de dólares, o que equivale a cerca de 124% do PIB norte-americano.
“Parem de mentir para o povo brasileiro que a culpa é do déficit público! Não é. O déficit público do ano passado foi mínimo. Os Estados Unidos foi dez vezes maior. E vocês também são responsáveis por essa situação caótica do povo brasileiro, empobrecido pelas elevadas taxas de juros que vocês praticam, sem ficar vermelho como estão agora”, disparou.
O deputado Heitor Schuch (PSB-RS) deu um exemplo prático de como os juros altos afetam diretamente o setor produtivo, especialmente pequenos produtores. No seu estado, agricultores têm dificuldade em fazer investimentos para retomar sua produção após a catástrofe das enchentes no ano passado.
“Na semana passada, houve a maior feira de agricultura familiar do Brasil em Rio Pardo. Não deu um negócio, porque ninguém se atreve a comprar uma máquina, por menor ou maior que seja, pagando 15% de juros”, contou.
Até mesmo o setor bancário se juntou às críticas feitas pelos parlamentares. Apesar de destacar que o Banco Central é “guardião” da previsibilidade da economia brasileira, Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), disse que as instituições financeiras não têm interesse em uma Selic elevada.
“Os bancos não defendem juros altos. Nós não precisamos de juros altos para termos a rentabilidade e o lucro que temos”, afirmou.
Remédio ineficaz
O presidente da CSB (Central dos Sindicatos Brasileiros) e do Sindpd-SP (Sindicato dos Trabalhadores em Tecnologia da Informação de São Paulo), Antonio Neto, tem denunciado como a política de juros do Banco Central não resolve a inflação brasileira, conforme admitiu o próprio Galípolo em seu discurso na Câmara quando indicou que pode aumentar a dose do remédio, em vez de trocar um tratamento que tem se mostrado ineficaz.
“A alta da Selic não resolve a inflação atual, que é majoritariamente de oferta e não de demanda. O setor produtivo ainda sofre com a herança dos governos anteriores, e os principais fatores que pressionam os preços – como os custos de combustíveis, energia e os impactos das mudanças climáticas na produção de alimentos – não são influenciados pela taxa de juros”, afirmou Neto no início do ano, quando o BC aumentou os juros na primeira reunião do Copom em 2025.
“Pelo contrário, o aumento da Selic só agrava as dificuldades no ajuste das contas públicas, uma vez que cada ponto percentual de elevação amplia em R$ 70 bilhões os gastos com o serviço da dívida, recursos que poderiam ser investidos em saúde, educação, infraestrutura e geração de empregos”, acrescentou.
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