“A Folha não indica o nome ou o gênero dos aplicativos e outras ferramentas tecnológicas que usa como atividade-meio para a produção de conteúdo. A responsabilidade por traduções ou trechos transcritos de fala para texto, para usar dois exemplos, é sempre dos nossos jornalistas. Eles devem zelar pelo material e fazer as modificações necessárias para que o produto entregue ao leitor siga os nossos padrões de qualidade”, afirma o secretário de Redação Vinicius Mota.
Seria importante que o jornal deixasse claro quando, no conteúdo oferecido a quem o lê, está usando IA. É menos questão de indicar os meios e mais sinal de cautela com um recurso cujas implicações e direções ainda não são totalmente conhecidas.
Em meados do ano passado, funcionários da OpenAI divulgaram uma carta em que denunciavam imprudência da empresa rumo à “super IA”. Neste momento, é a própria OpenAI que escreve uma carta aberta enumerando suas propostas ao governo americano. Entre os pontos sensíveis, está o uso de material com direitos autorais para treinar a IA, com argumento um tanto chantagista, mas realista, de que se os EUA não o fizerem vão perder a corrida para a China, cujo DeepSeek obrigou o mercado a se reorganizar. O site de tecnologia AppleInsider resumiu a proposta da OpenAI como “legalizar o roubo ou perder para a China”.
Em outro canto da briga da IA, a revista The Atlantic lançou nesta semana um serviço de consulta à base de dados LibGen, associada à pirataria, para que autores consultem se seus trabalhos podem ter sido usados para alimentar a IA das Big Techs, notadamente a da Meta, que está no centro de uma disputa judicial com autores nos EUA.
Com tamanho estimado em 7,5 milhões de títulos e 81 milhões de artigos científicos, a base é pródiga em recolher muito do que é publicado mundo afora. O Manual da Redação da Folha, por exemplo, está lá, em versões desatualizadas (2007 e 2018). A versão mais recente é de 2021, e um verbete sobre IA foi incorporado a ela em 2023.
O Estado de S. Paulo expôs aos leitores sua política também no final de 2023, na esteira da primeira grande onda da inteligência artificial generativa. O Grupo Globo, no ano passado, publicou a sua.
Além da transparência sobre o conteúdo, agora entram em cena também os acordos com as empresas detentoras dessas tecnologias. No mês passado, o The Guardian anunciou “parceria estratégica” com a OpenAI que permitiria a inclusão do conteúdo do jornal e de seus arquivos no banco da inteligência artificial e o uso do ChatGPT Enterprise para desenvolvimento de novos produtos. O Financial Times também o usa. A lista de acordos da OpenAI é extensa e inclui El País, Le Monde e Vox Media. A briga judicial, encabeçada pelo The New York Times, também é grande.
Neste sábado, o Il Foglio soltou um resumo do que chamou de “semana louca”, a primeira do experimento que deve durar um mês. “Il Foglio AI produziu algo estranho: um jornal de verdade, mas sem carne. Uma refeição completa, mas vegana. Nutre, mas não engorda. Faz pensar, mas não faz você querer ligar para o autor e dizer que ele escreveu besteira. Porque não há autor. Existe apenas uma inteligência artificial que responde às solicitações dos editores —os verdadeiros protagonistas invisíveis da operação”, diz a avaliação, também escrita pela IA a partir das instruções dos editores (“no estilo de Il Foglio, com um pouco de irreverência”).
A resposta esquece outros protagonistas, os repórteres. Mas ao menos reconhece que falta à IA um elemento fundamental em qualquer Redação: escutar, de verdade, quem está do outro lado.
*Texto publicado originalmente na Folha de S. Paulo
(Foto: Reprodução)