Avanço da IA desloca o centro da inovação para a fabricação de semicondutores, energia e integração industrial, com impacto direto na economia e na geopolítica

Inteligência artificial – A nova onda de chips para inteligência artificial já define energia, capital e soberania industrial, e 2026 tende a consagrar um modelo vencedor baseado em integração total entre design, fabricação e software.

O futuro já chegou. Ele tem forma de silício e cobra pedágio em energia e capital. O debate público sobre inteligência artificial ainda gira em torno de “modelos”, como se o avanço dependesse apenas de bons dados e ótimas ideias. Essa lente perdeu utilidade.

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O gargalo real passou a morar abaixo do software, no chão de fábrica e na sala elétrica, onde se decide capacidade, eficiência e escala. Chips de nova geração saíram do papel de componente e assumiram o papel de infraestrutura crítica.

Estamos vendo esse tema em bastante discussão na CES 2026, feira de tecnologia que ocorre em Las Vegas. Quem tratar esse tema como mera evolução de hardware perde o fio da história.

Os números indicam o tamanho do deslocamento. A receita global de semicondutores chegou a US$ 626 bilhões em 2024. A projeção para 2025, ainda a ser confirmada nos primeiros meses de 2026, aponta US$ 705 bilhões. Esse salto se concentra onde a inteligência artificial pede passagem. Semicondutores para data centers somaram US$ 112 bilhões em 2024, ante US$ 64,8 bilhões em 2023.

Quando uma categoria quase dobra em um ano, o mercado envia um recado categórico. A economia passou a comprar potência computacional como quem compra energia.

Esse movimento tem causa direta. O setor trocou a fase do “experimento bonito” pela fase do “serviço permanente”. Treinar modelos grandes custa caro, mas operar modelos em escala custa ainda mais e com prazo maior. A inferência em tempo real, em atendimento, segurança, indústria e automação, desloca o centro de gravidade para eficiência por watt e por dólar.

Nessa nova conta, GPU (Graphics Processing Unit), TPU (Tensor Processing Unit) e ASIC (Application-Specific Integrated Circuit) representam estratégias de sobrevivência, cada uma com prós e limites. A GPU brilha em flexibilidade e ecossistema. A TPU e os ASICs tentam arrancar eficiência e previsibilidade ao reduzir desperdício. Em 2026, a disputa premiará menos o “chip mais rápido” e mais o sistema com maior eficiência.

A palavra “sistema” importa. O chip deixou de ser uma peça isolada. Ele depende de memória, interconexão, empacotamento e software. E a memória virou gargalo mensurável. A HBM (High Bandwidth Memory) deve representar 19,2% da receita de DRAM em 2025, com receita de HBM projetada em US$ 19,8 bilhões. Isso explica por que a corrida se deslocou para integração 3D, empilhamento, chiplets e empacotamento avançado.

Quando o custo e a disponibilidade de memória de alta largura de banda viram fator decisivo, a vantagem deixa de morar apenas na arquitetura do processador. Passa a morar na capacidade industrial de entregar o pacote completo, com yield alto, previsibilidade e volume.

A consequência mais desconfortável surge fora da indústria de semicondutores. A inteligência artificial exige eletricidade em escala. A Agência Internacional de Energia aponta que a demanda global de eletricidade de data centers deve mais que dobrar até 2030, para cerca de 945 TWh.

Aqui, a ficção científica perde glamour e ganha peso físico. A ambição de modelos maiores e mais frequentes bate em redes elétricas, licenças, fontes de energia, disponibilidade hídrica, refrigeração e aceitação social. Data center virou ativo estratégico porque virou centro de consumo, de investimento e de disputa política.

Esse deslocamento também aparece na macroeconomia. Há estimativas de gasto total global com inteligência artificial US$ 2 trilhões em 2026. Esse volume consolida o argumento central: a corrida por chips já dita ritmo de inovação e passa a moldar geopolítica industrial.

Países e blocos econômicos tratam cadeias de suprimentos como tema de segurança. Empresas tratam capacidade como vantagem competitiva, com contratos longos, pré-pagamentos e alianças. O discurso de “plataforma aberta” perde força quando a oferta de silício e de energia dita quem consegue atender clientes.