Pesquisa encontrou sinais de amadurecimento cerebral mais lento em adolescentes expostos a maiores níveis de poluição atmosférica
Poluição e atraso cognitivo – A exposição contínua à poluição do ar pode estar interferindo diretamente no desenvolvimento cerebral de adolescentes. É o que indica um estudo publicado na revista científica Developmental Cognitive Neuroscience, que acompanhou milhares de jovens nos Estados Unidos durante dois anos e encontrou sinais de amadurecimento neural mais lento entre aqueles que viviam em regiões mais poluídas.
Embora a poluição atmosférica seja tradicionalmente associada a problemas respiratórios e cardiovasculares, pesquisadores têm observado efeitos cada vez mais amplos sobre o cérebro humano, especialmente durante a infância e a adolescência, fases marcadas por transformações intensas nas conexões neurais.
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A pesquisa analisou adolescentes entre 9 e 12 anos e investigou principalmente os impactos de dois tipos específicos de poluição: as partículas finas PM2.5, frequentemente emitidas por escapamentos, incêndios florestais e usinas, e o ozônio ao nível do solo, gás formado a partir de reações químicas entre poluentes sob a luz solar.
Segundo os cientistas, essas substâncias parecem interferir em processos fundamentais ligados ao amadurecimento cerebral. Durante essa etapa da vida, o cérebro passa por uma reorganização importante das conexões neurais, relacionada ao desenvolvimento de habilidades como memória, atenção, controle emocional e velocidade de processamento mental.
Os pesquisadores acompanharam 3.645 participantes do projeto ABCD Study, uma das maiores pesquisas do mundo sobre desenvolvimento cerebral infantil e adolescente. Os jovens realizaram exames cerebrais e testes cognitivos aos 9 ou 10 anos e repetiram as avaliações cerca de dois anos depois.
Entre os principais aspectos analisados estava a espessura do córtex cerebral, camada externa do cérebro responsável por funções complexas. Na adolescência, essa região normalmente passa por um processo conhecido como “poda sináptica”, no qual conexões neurais menos utilizadas são eliminadas para aumentar a eficiência cerebral.
Nos adolescentes que viviam em áreas com menor poluição, esse afinamento ocorreu dentro do esperado. Já entre os jovens expostos a níveis mais elevados de poluentes, o processo apareceu de maneira menos intensa ao longo do período analisado.
Os cientistas também observaram como diferentes regiões cerebrais se comunicavam em estado de repouso. Em adolescentes saudáveis, essas redes neurais tendem gradualmente a adquirir padrões mais próximos dos encontrados em cérebros adultos. Mais uma vez, os grupos mais expostos à poluição demonstraram evolução mais lenta.
Além das imagens cerebrais, os participantes realizaram testes cognitivos computadorizados voltados à memória de trabalho, velocidade de raciocínio, atenção sustentada, leitura e controle inibitório, habilidade relacionada à capacidade de ignorar distrações.
Os adolescentes que viviam em ambientes menos poluídos apresentaram progresso consistente ao longo dos dois anos. Já os jovens expostos a maiores concentrações de PM2.5 e ozônio registraram avanços menores do que o esperado para a faixa etária.
Segundo Omid Kardan, professor de psiquiatria da Universidade de Michigan e principal autor do estudo, os efeitos observados são considerados relativamente pequenos do ponto de vista estatístico. Ainda assim, o pesquisador alerta que diferenças discretas no desenvolvimento cognitivo podem gerar consequências importantes no longo prazo, afetando desempenho escolar, saúde mental, adaptação emocional e resiliência psicológica.
Um dos pontos que chamou a atenção dos cientistas foi o perfil socioeconômico dos grupos analisados. Os adolescentes mais expostos às partículas finas PM2.5 geralmente pertenciam a famílias de menor renda, enquanto aqueles submetidos a níveis elevados de ozônio frequentemente vinham de contextos socioeconômicos mais altos.
Mesmo assim, ambos os grupos apresentaram sinais semelhantes de atraso no amadurecimento neurocognitivo. Para os pesquisadores, isso reforça a hipótese de que a poluição atmosférica possui uma relação específica com o desenvolvimento cerebral, independentemente de fatores como renda familiar, escolaridade dos pais ou desigualdades sociais.
Para reduzir possíveis distorções, os participantes foram comparados levando em consideração idade, sexo biológico, raça, renda e educação familiar.
Apesar dos resultados, os próprios autores destacam limitações importantes da pesquisa. Os níveis de poluição foram calculados com base na qualidade do ar dos bairros onde os participantes viviam no início do estudo, sem medir exatamente quanto de poluição cada adolescente respirava diariamente.
Além disso, os cientistas não acompanharam mudanças de residência, ambientes escolares ou níveis de exposição em locais fechados. Por isso, os pesquisadores evitam afirmar que a poluição tenha causado diretamente as alterações cerebrais observadas.
Ainda assim, o estudo se soma a um conjunto crescente de pesquisas que apontam para a influência de fatores ambientais sobre o desenvolvimento neurológico de crianças e adolescentes.
Agora, os cientistas pretendem continuar acompanhando os participantes em fases posteriores da adolescência para entender se as diferenças observadas permanecem, aumentam ou diminuem ao longo do tempo.
Para os pesquisadores, a principal preocupação é a possibilidade de que ambientes urbanos contaminados interfiram silenciosamente em processos cerebrais delicados durante uma etapa decisiva da vida. Embora os efeitos individuais pareçam modestos, pequenas alterações distribuídas por milhões de adolescentes podem produzir impactos sociais significativos nas próximas décadas.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Imagem gerada com IA)