Sistema combina sensores externos e inteligência artificial para reconstruir caracteres digitados
Atividade cerebral – Interfaces cérebro-computador podem criar possibilidades de comunicação para pessoas que perderam a capacidade de falar ou movimentar os membros. Embora algumas das tecnologias mais precisas dependam de eletrodos implantados cirurgicamente no cérebro, uma nova pesquisa demonstra que sensores posicionados externamente também podem captar informações suficientes para reconstruir parte da linguagem escrita.
Pesquisadores da Meta AI, da Universidade PSL e da Fundação Hospital Adolphe de Rothschild desenvolveram o Brain2Qwerty, um sistema de inteligência artificial capaz de transformar sinais da atividade cerebral em caracteres escritos. A proposta dispensa a implantação de sensores dentro do crânio e pode representar uma alternativa menos invasiva para futuras interfaces cérebro-computador.
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A tecnologia, porém, ainda está distante de se tornar um dispositivo médico disponível para pacientes. Os experimentos realizados até agora indicam que é possível reconstruir frases com uma precisão considerável a partir de sinais captados externamente.
Como funciona a conversão da atividade cerebral
O estudo contou com 35 voluntários saudáveis, sem problemas neurológicos ou limitações motoras. Durante os experimentos, eles observavam frases apresentadas palavra por palavra em uma tela. Depois de memorizá-las, os participantes precisavam digitá-las em um teclado convencional.
Enquanto realizavam a tarefa, os pesquisadores registravam a atividade cerebral utilizando duas técnicas: eletroencefalografia (EEG) e magnetoencefalografia (MEG). Nenhuma das duas exige a implantação de sensores no cérebro.
No EEG, eletrodos posicionados sobre o couro cabeludo registram os sinais elétricos produzidos pela atividade cerebral. Já a MEG utiliza sensores extremamente sensíveis para identificar os minúsculos campos magnéticos gerados pelos neurônios.
A magnetoencefalografia consegue produzir sinais mais precisos, mas apresenta uma limitação relevante. Os equipamentos utilizados são grandes, caros e difíceis de transportar, o que dificulta sua aplicação fora de ambientes especializados.
Brain2Qwerty combina três etapas de inteligência artificial
Após o registro da atividade cerebral, os dados são processados pelo Brain2Qwerty em diferentes etapas.
Primeiro, uma rede neural examina pequenos segmentos de aproximadamente meio segundo da atividade cerebral registrada durante a digitação. Depois, um modelo baseado na arquitetura transformer analisa a sequência completa dos sinais e tenta determinar quais caracteres estavam sendo digitados.
Na terceira etapa, um modelo de linguagem atua para reduzir os erros. Para isso, considera as combinações de letras, palavras e frases que apresentam maior probabilidade do ponto de vista linguístico.
Essa etapa é especialmente relevante porque os sinais captados por sensores externos apresentam muito ruído. O modelo de linguagem funciona como uma camada adicional, transformando previsões imperfeitas em sequências de texto mais coerentes.
MEG apresentou desempenho superior ao EEG
Os resultados mostraram uma diferença significativa entre as duas técnicas empregadas na pesquisa.
Com a magnetoencefalografia, o Brain2Qwerty registrou uma taxa média de erro por caractere de aproximadamente 29%. Já com a eletroencefalografia, o índice ficou próximo de 65%.
Entre os participantes nos quais o sistema teve melhor desempenho, a taxa de erro com MEG chegou a aproximadamente 18%.
Outro resultado observado pelos pesquisadores foi a capacidade de reconstruir corretamente algumas frases que não faziam parte dos dados utilizados no treinamento da inteligência artificial. Isso indica que o sistema não estava simplesmente memorizando combinações previamente conhecidas.
Sistema não é capaz de “ler pensamentos”
Apesar dos resultados, o Brain2Qwerty não deve ser interpretado como uma tecnologia capaz de identificar livremente os pensamentos de uma pessoa.
Durante os experimentos, os voluntários primeiro memorizavam uma frase e, posteriormente, digitavam o conteúdo enquanto sua atividade cerebral era registrada. O sistema procurava identificar padrões neurais relacionados especificamente ao processo de produção da escrita.
Isso significa que a tecnologia ainda está muito distante de simplesmente colocar sensores sobre a cabeça de uma pessoa e transformar qualquer pensamento espontâneo em palavras.
A diferença é importante para compreender o alcance atual da pesquisa e suas limitações. O sistema interpreta padrões associados a uma atividade específica realizada em condições controladas, e não pensamentos de maneira geral.
Sensores externos podem ser alternativa aos implantes
As interfaces cérebro-computador mais avançadas têm alcançado resultados cada vez mais expressivos. Algumas delas utilizam eletrodos implantados diretamente no cérebro para captar sinais com maior resolução. Essa estratégia é investigada por empresas como a Neuralink e por diversos grupos acadêmicos.
A proximidade dos eletrodos com os neurônios permite registrar sinais mais claros. Em contrapartida, a abordagem exige a realização de uma cirurgia.
Tecnologias como EEG e MEG eliminam a necessidade desse procedimento, mas enfrentam outro obstáculo: os sinais captados externamente são mais fracos e estão mais sujeitos a interferências.
É nesse ponto que a inteligência artificial pode desempenhar um papel importante. Modelos capazes de identificar padrões extremamente sutis nos dados podem extrair informações que anteriormente seriam mais difíceis de interpretar.
Pesquisa ainda enfrenta desafios
Um dos objetivos de longo prazo é desenvolver sistemas que possam auxiliar pessoas com paralisia ou outras limitações motoras graves a se comunicar sem depender de implantes cerebrais.
Antes que isso seja possível, entretanto, ainda será necessário superar obstáculos importantes.
Os experimentos foram realizados com pessoas saudáveis que eram capazes de digitar normalmente. Por isso, será necessário investigar se os mesmos padrões podem ser identificados em pacientes incapazes de movimentar as mãos.
A precisão do sistema também precisa melhorar consideravelmente. Além disso, a magnetoencefalografia, responsável pelos melhores resultados nos experimentos, depende atualmente de equipamentos grandes e caros, pouco adequados para utilização cotidiana.
O Brain2Qwerty ainda não representa, portanto, um substituto para as interfaces cérebro-computador implantáveis. O estudo, porém, demonstra que a combinação entre sensores externos e inteligência artificial pode extrair dos sinais cerebrais informações suficientes para reconstruir parte da linguagem escrita.
Com a evolução da tecnologia, essa abordagem poderá contribuir para o desenvolvimento de uma nova geração de interfaces cérebro-computador capazes de transformar atividade neural em comunicação digital sem a necessidade de inserir eletrodos dentro do cérebro.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific)