Crescimento do uso de inteligência artificial no aconselhamento financeiro contrasta com lacunas legais sobre responsabilidade e proteção ao consumidor
IA – O desenvolvimento acelerado da inteligência artificial (IA) vem transformando o setor financeiro e já levanta questionamentos sobre o futuro dos consultores tradicionais. De acordo com especialistas ouvidos pelo canal de televisão americano CNBC, a tecnologia avança rapidamente e tende a assumir, no futuro, uma parte relevante das funções atualmente desempenhadas por esses profissionais, sobretudo pela capacidade crescente de análise de dados e geração de recomendações.
Apesar desse progresso técnico, um obstáculo importante ainda impede uma substituição mais ampla: a ausência de responsabilidade fiduciária. Diferentemente dos consultores humanos, os sistemas de IA não têm uma obrigação legal de agir no melhor interesse do cliente, o que gera incertezas sobre seu uso em decisões financeiras.
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Para Andrew Lo, professor do Massachusetts Institute of Technology, o principal desafio não está na capacidade das ferramentas. Segundo ele, a IA já demonstra domínio consistente sobre conceitos financeiros. O ponto crítico, no entanto, é a inexistência de consequências formais em casos de erro, algo que no ambiente humano, pode resultar em diversas penalidades legais e até criminais.
Adoção cresce, mas confiança exige cautela
Mesmo com limitações regulatórias, o uso da inteligência artificial no aconselhamento financeiro já é significativo. Dados de uma pesquisa da Intuit Credit Karma indicam que dois terços dos americanos que utilizaram IA recorreram à tecnologia para obter orientação financeira. Entre millennials e integrantes da geração Z, esse percentual é ainda mais elevado.
A adesão às recomendações também chama atenção: cerca de 85% dos usuários afirmaram ter seguido as sugestões oferecidas pelos sistemas. O dado evidencia um alto nível de confiança nas ferramentas, mesmo na ausência de um marco regulatório consolidado.
Esse cenário, segundo especialistas, amplia uma discussão ainda em aberto: quem deve ser responsabilizado por prejuízos decorrentes de decisões baseadas em IA. A questão ganha relevância sobretudo quando as recomendações não estão vinculadas a instituições que possuam dever fiduciário.
Limitações ainda exigem supervisão humana
Apesar dos avanços, a inteligência artificial ainda apresenta fragilidades, especialmente em análises mais complexas e personalizadas. Conforme aponta Lo, os sistemas podem fornecer explicações convincentes, mas nem sempre corretas, o que exige verificação constante por parte dos usuários.
Outro ponto sensível envolve cálculos financeiros específicos. Em áreas como planejamento tributário ou decisões patrimoniais detalhadas, inconsistências ainda podem ocorrer, reforçando a necessidade de cautela no uso dessas ferramentas.
Diante disso, especialistas recomendam que a IA seja utilizada como um instrumento de apoio capaz de oferecer cenários, interpretações e possibilidades, mas não como única base para decisões financeiras. A presença humana segue sendo considerada essencial, sobretudo em escolhas de maior impacto.
Regulação deve ganhar protagonismo
O avanço da inteligência artificial no mercado financeiro também reacende o debate sobre regulamentação. Atualmente, existem muitas plataformas que não são classificadas como prestadoras formais de aconselhamento financeiro, o que as isenta de exigências legais mais rigorosas.
Por outro lado, profissionais humanos podem ser responsabilizados pelo uso dessas ferramentas. Caso um consultor utilize IA para orientar um cliente e a recomendação seja inadequada, a responsabilidade recai diretamente sobre o profissional, e não sobre o sistema. Esse cenário evidencia uma zona cinzenta que tende a atrair maior atenção dos reguladores nos próximos anos.
Para os especialistas, será necessário estabelecer regras claras que definam as responsabilidades e criem mecanismos de proteção ao consumidor. Até lá, a expectativa é de convivência entre humanos e máquinas, com a IA atuando como suporte estratégico, ampliando o acesso à informação e democratizando o planejamento financeiro, mas ainda distante de substituir completamente o trabalho dos consultores no curto prazo, conforme foi feita a análise da CNBC.
(Com informações de It Forum)
(Foto: Reprodução/Freepik)