Relação entre humanos e máquinas já era debatida há mais de 70 anos, desde primeiros passos de tecnologias precursoras da IA

Inteligência artificial – Recorrer a sistemas de inteligência artificial para buscar apoio emocional, aconselhamento ou até companhia pode parecer um fenômeno típico do século 21. No entanto, esse tipo de relação entre humanos e máquinas já era debatido há mais de 70 anos, desde os primeiros passos da inteligência artificial.

Desde a década de 1950, a trajetória da IA tem sido marcada por dilemas recorrentes: o receio de que máquinas substituam pessoas, a tendência de humanizar tecnologias, o apego emocional que usuários desenvolvem por sistemas artificiais e ciclos de promessas ambiciosas que nem sempre se concretizam. O que muda no cenário atual, segundo pesquisadores, é a escala dos investimentos financeiros e o espaço que essas tecnologias passaram a ocupar junto a governos e grandes empresas.

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O pesquisador Bernardo Gonçalves, do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), destaca que, apesar das diferenças de contexto, as questões centrais permanecem as mesmas. Para ele, os debates que cercam a inteligência artificial hoje são ecos diretos das discussões travadas no surgimento do campo.

Um dos primeiros exemplos desse fenômeno ocorreu ainda nos anos 1960, com a criação do programa Eliza, considerado o primeiro chatbot amplamente conhecido. Desenvolvido por Joseph Weizenbaum, do MIT, o sistema simulava conversas por meio de regras pré-definidas, sem compreender de fato o conteúdo das mensagens. Mesmo assim, o programa despertou forte envolvimento emocional em usuários, a ponto de algumas pessoas acreditarem que ele poderia exercer funções terapêuticas reais.

O próprio criador da tecnologia se mostrou surpreso com esse tipo de reação e passou a alertar para os limites éticos e humanos da inteligência artificial. Para Weizenbaum, certos tipos de pensamento e decisão deveriam permanecer sob responsabilidade exclusiva dos seres humanos.

A tendência de atribuir características humanas às máquinas também já estava presente nos primórdios da computação. Em 1950, o cientista britânico Alan Turing levantou a pergunta que atravessaria décadas: as máquinas podem pensar? O debate provocou críticas teológicas e filosóficas, especialmente sobre consciência, criatividade e emoção – temas que continuam centrais nas discussões atuais sobre IA.

Com o tempo, pesquisadores buscaram evitar definições que confundissem máquinas com mentes humanas. Um marco nesse esforço foi a conferência realizada em 1956 no Dartmouth College, quando o termo “inteligência artificial” passou a ser usado para descrever sistemas que se comportam de forma considerada inteligente, sem necessariamente reproduzir o funcionamento da mente humana.

Ainda assim, a linguagem antropomórfica permaneceu presente. Segundo análises recentes, o uso de termos como “aprendizado”, “leitura” e “criação” para descrever softwares contribui para a percepção exagerada das capacidades reais dessas tecnologias e levanta questionamentos sobre responsabilidade e poder no uso da IA.

Outro debate histórico que segue atual diz respeito ao papel das máquinas: ajudar humanos ou substituí-los. Enquanto Turing projetava um futuro em que interagir com máquinas seria tão natural quanto conversar com pessoas, outros cientistas da época defendiam uma abordagem mais cautelosa. Para eles, o uso excessivo de metáforas humanas poderia obscurecer o verdadeiro objetivo da computação, que seria ampliar a capacidade humana de raciocínio, não eliminá-la.

Essas disputas, segundo Gonçalves, estão diretamente ligadas ao poder e às transformações sociais provocadas pela tecnologia. A história da computação mostra que a automação sempre teve impacto direto no mercado de trabalho. Um exemplo simbólico é o próprio termo “computador”, que antes designava pessoas responsáveis por cálculos complexos – função que desapareceu com a evolução das máquinas.

O ciclo de promessas e frustrações também acompanha a inteligência artificial desde suas origens. Nos anos 1970, críticas sobre expectativas irreais levaram ao chamado “inverno da IA”, quando investimentos e interesse no campo diminuíram. Hoje, segundo o pesquisador, esse movimento volta a se repetir, impulsionado por grandes empresas de tecnologia e orçamentos bilionários.

Apesar da polarização entre visões excessivamente otimistas e profundamente céticas, Gonçalves avalia que a área segue avançando. Desde o surgimento de sistemas mais recentes, os progressos são visíveis, especialmente na automação de atividades intelectuais e de escritório, áreas que haviam sido menos impactadas pelas revoluções industriais anteriores.

A história da inteligência artificial, portanto, revela que muitos dos debates atuais não são novos, mas parte de um longo processo de adaptação social, econômica e política às tecnologias que moldam a relação entre humanos e máquinas.

(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Freepik)