Estudo analisa a realidade de quase 11 milhões de brasileiras que criam os filhos sozinhas e enfrentam menor renda e maior informalidade
Mães solo com salários menores – A trajetória de Mariene Ramos, 36 anos, confunde-se com o objeto de sua pesquisa. Nascida em Ponte Alta do Bom Jesus, no interior do Tocantins, ela cresceu auxiliando a mãe a cuidar dos filhos de outras mulheres, muitas delas também mães solo.
Após uma infância marcada por mudanças e superações, como o estudo em escola rural e o apoio doméstico à família no Novo Gama, periferia de Brasília, Mariene trilhou o caminho acadêmico que a levou ao mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Hoje, ela dá voz e números a uma realidade que viveu na pele ao se tornar, também, uma mãe solo na vida adulta.
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Os dados compilados por Mariene, sob a coorientação dos pesquisadores Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, traçam um retrato alarmante da desigualdade no Brasil. Com base na Pnad Contínua de 2022, o estudo aponta que o país soma mais de 10,9 milhões de mães solo responsáveis por seus domicílios, uma população equivalente à de países como Portugal ou Bélgica.
Embora as mulheres tenham passado a chefiar 52% dos lares brasileiros desde 2022, nos arranjos monoparentais essa liderança feminina chega a 92%, segundo dados do Dieese e do IBGE.
A pesquisa evidencia o que se convencionou chamar de “penalidade pela maternidade”, que se traduz em rendimentos mais baixos e menor probabilidade de contratação. Em 2022, as mães solo registraram o menor rendimento médio entre todos os arranjos familiares: R$ 2.322. O valor é quase 40% inferior ao dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% menor que o das mães casadas.
“As mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento, elas sofrem também na questão da precariedade do trabalho”, observa Mariene, destacando que apenas 28,3% desse grupo possui cobertura previdenciária, contra 54,8% dos pais casados.
Essa precarização empurra as mães solo para setores desvalorizados. O estudo revela uma forte concentração no serviço doméstico, que ocupa 21,9% desse grupo, um percentual 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge. Além da baixa escolaridade (55% possuem no máximo o ensino médio incompleto), o preconceito estrutural trava o crescimento dessas mulheres.
“Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade, menos flexibilidade e vai render menos”, explica a pesquisadora, ressaltando que o perfil racial também é fator de corte: 62% das mães solo são negras.
Outro ponto crítico é a chamada “geração sanduíche”. No caso das mães solo, 33,5% residem com idosos acima de 60 anos, o que frequentemente resulta em uma jornada dupla ou tripla de cuidados.
De acordo com o Made-USP, mulheres brasileiras trabalham, em média, 58,1 horas semanais entre tarefas remuneradas e domésticas, configurando uma escala 7×0. “Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe”, diz Mariene.
Atualmente, 57% dessas mulheres dependem de benefícios sociais do Estado, o que a pesquisadora classifica como uma falha direta do mercado de trabalho em absorvê-las.
Para reverter esse quadro, Mariene Ramos defende o investimento em qualificação profissional e, primordialmente, a ampliação de creches em tempo integral, visto que apenas 41,2% das crianças de até 3 anos são atendidas hoje no país.
Ao olhar para trás e ver o esforço da própria mãe, que descreve brincando como uma “política pública ambulante” por cuidar dos filhos da vizinhança, Mariene reforça que o ajuste das políticas públicas a essa realidade beneficia toda a economia.
“Eu furei essa bolha: me tornei servidora pública, fiz mestrado, e pretendo continuar esse estudo no doutorado. Mas, para que mais pessoas possam furar a bolha, é preciso trazer essas mulheres para um mercado de trabalho menos precário”, conclui.
(Com informações de g1)
(Foto: Reprodução/Freepik)