Ferramentas de geração sonora se expandem enquanto plataformas enfrentam fraudes, pressão por transparência e questionamentos sobre autoria

Músicas geradas por IA – A inteligência artificial (IA) vem ampliando rapidamente sua atuação na indústria musical, ocupando desde etapas criativas, como a produção de samples e demos, até funções estratégicas, como a curadoria de playlists e a organização de conteúdos nas plataformas digitais. O avanço, no entanto, não ocorre sem tensão: ao mesmo tempo em que abre novas possibilidades, também levanta desafios técnicos, disputas jurídicas e dilemas sobre o papel do artista no processo criativo.

Nos últimos meses, uma série de lançamentos e decisões de mercado evidenciam a velocidade dessa transformação. Entre eles está a versão 5.5 do modelo de geração musical da Suno, que passou a priorizar o controle do usuário. A atualização inclui recursos como Voices, que permite treinar o sistema com a própria voz a partir de gravações, além de ferramentas como My Taste e Custom Models, voltadas à personalização do resultado final. Embora a plataforma tenha implementado mecanismos de verificação para reduzir riscos de uso indevido, especialistas apontam que ainda existem brechas técnicas capazes de contornar essas restrições.

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No cotidiano da produção, o uso de IA tem avançado de forma discreta. A prática é muitas vezes tratada sob uma lógica informal de “não pergunte, não conte”, com artistas utilizando ferramentas para experimentar arranjos ou desenvolver ideias iniciais sem tornar isso público. Em entrevista à Rolling Stone, a compositora Michelle Lewis afirmou que ainda há resistência em admitir o uso dessas tecnologias. Já o produtor Young Guru observa que o recurso se tornou comum, especialmente no hip-hop, onde a criação de samples por IA frequentemente substitui o licenciamento de obras originais.

Se por um lado a tecnologia amplia possibilidades criativas, por outro também abre espaço para fraudes. Um dos casos mais emblemáticos envolve Michael Smith, da Carolina do Norte, que se declarou culpado por operar um esquema baseado em centenas de milhares de músicas geradas por IA. Com o uso de bots para inflar reproduções, ele teria acumulado mais de US$ 8 milhões em royalties, segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O episódio acendeu o alerta sobre a vulnerabilidade dos sistemas de remuneração no streaming.

Diante desse cenário, plataformas passaram a adotar medidas de transparência e controle. A Apple Music lançou as chamadas “Transparency Tags”, que indicam quando elementos como faixa, composição, arte visual ou videoclipe contam com geração algorítmica. Serviços como Qobuz e Deezer também avançaram na identificação automática desse tipo de conteúdo, enquanto a Qobuz reforçou o compromisso com curadoria exclusivamente humana. Em contraste, o Bandcamp adotou uma política mais restritiva, proibindo materiais total ou substancialmente gerados por IA, incluindo aqueles que reproduzem estilos de artistas específicos.

Apesar dessas iniciativas, distinguir entre criações humanas e artificiais ainda é um desafio. Um estudo conduzido pela Deezer em parceria com a Ipsos aponta que a grande maioria dos ouvintes não consegue identificar músicas geradas por IA, embora o próprio levantamento reconheça limitações metodológicas. Nesse contexto, o debate sobre autoria e criatividade ganha força: até que ponto a elaboração de comandos para algoritmos pode ser considerada um ato artístico?

Entre avanços tecnológicos, tentativas de regulação e novos modelos de negócio, a indústria musical atravessa um período de transição. O equilíbrio entre inovação, transparência e proteção ao trabalho criativo segue como um dos principais desafios de um setor em rápida transformação.

(Com informações de Olhar Digital)
(Foto: Reprodução/Freepik/user26547825/Imagem gerada por IA)