Projeto aposta em fábricas portáteis e replicáveis para atender demandas locais e avançar na soberania tecnológica
Produção de chips – Apesar de contar com recursos naturais e conhecimento técnico, o Brasil ainda depende quase totalmente da importação de milhões de semicondutores todos os anos. Em entrevista ao Deu Tilt, podcast do UOL que discute os bastidores da tecnologia, o professor Marcelo Zuffo, da Escola Politécnica da USP, afirma que a universidade pretende alterar esse cenário com as chamadas PocketFab, minifábricas de chips desenvolvidas na instituição.
Segundo Zuffo, o país dispõe de silício, terras raras, água, energia e mercado consumidor. Ainda assim, os chips chegam caros ao Brasil porque a produção global está concentrada em poucas nações, que também impõem barreiras tecnológicas. Para ele, soberania vai além do acesso à matéria-prima e passa pelo domínio completo do processo produtivo.
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“(Soberania) É ir da aplicação de ar a você fabricar o chip, não dependendo de ninguém. Você tem o domínio absoluto do processo ponta a ponta,” afirma Marcelo Zuffo.
As PocketFab foram concebidas como unidades menores, portáteis e reproduzíveis, que podem ser instaladas em diferentes localidades e adaptadas às necessidades regionais, oferecendo maior flexibilidade em comparação às fábricas tradicionais.
O projeto-piloto foi lançado em janeiro e funcionará no campus da USP, no Butantã. A estrutura ocupará uma área de cerca de 150 metros quadrados e demandou investimento de R$ 89 milhões – o maior já realizado pela universidade em uma única iniciativa.
Na avaliação de Zuffo, a proposta representa um primeiro degrau para que o Brasil volte a subir na cadeia global da indústria de semicondutores. Cada unidade poderá produzir até 6 milhões de chips por ano, estima o professor, com custo aproximado de US$ 10 por componente.
Outro diferencial apontado é a capacidade de replicação das fábricas de acordo com a demanda local. Uma PocketFab completa custa cerca de US$ 15 milhões, mas versões reduzidas podem ser implantadas a partir de US$ 1,5 milhão. O modelo também permite expansão gradual: caso a procura aumente, basta duplicar os equipamentos.
Zuffo compara a PocketFab a uma “padaria de chips”. Embora utilize máquinas e componentes de diferentes países, o sistema garante autonomia nacional para projetar, adaptar e aperfeiçoar os equipamentos. Ele cita o trabalho do professor Ronaldo, da Poli-USP, que já desenvolveu no Brasil máquinas consideradas essenciais para esse tipo de produção.
O professor acredita que a iniciativa pode estimular outros pesquisadores e empresas brasileiras a investir no setor. Segundo ele, já existe interesse de grandes indústrias em instalar PocketFabs em polos industriais do país, inclusive em contêineres, para atender cadeias produtivas específicas.
Existência humana depende da tecnologia de chip
Atualmente, cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) mundial está direta ou indiretamente ligada aos semicondutores, presentes em praticamente todos os dispositivos eletrônicos, de celulares a automóveis. Para Marcelo Zuffo, no entanto, o papel dos chips vai além do impacto econômico e se conecta à própria sobrevivência da humanidade.
“Toda essa tecnologia, que é uma relação simbiótica com o humano, é um fator determinante da própria existência do ser humano no planeta Terra. Existem os lados negativos da tecnologia, mas imagine a gente enfrentar a pandemia sem chip? Foi graças aos chips que nós conseguimos simular e processar vacinas em tempo real.
Se a gente não tivesse essa capacidade, talvez o legado da pandemia seria uma quantidade de humanos mortos dez vezes maior do que hoje. A própria existência humana nesse planeta depende da tecnologia de chip.”
Fábricas gigantes de chips seria um erro
De acordo com o professor da Poli-USP, apostar em megafábricas de semicondutores no Brasil não é uma estratégia viável. Essas plantas industriais exigem investimentos bilionários, consomem volumes elevados de água e energia e geram resíduos altamente tóxicos, o que compromete sua sustentabilidade ambiental e econômica.
“Ela é cara, ela é pesada, ela não é flexível. Só tem megafábrica na Ásia até hoje porque foi a única região do mundo que aceitou se submeter a níveis de poluição absurdos. Quando você vai fabricar o chip, você usa muita água, produtos com alta toxicidade, efluentes, ácidos. E aí que está o problema. As ‘megafabs’ estão se lixando para a sustentabilidade. Elas não são sustentáveis do ponto de vista de consumo de energia, não são sustentáveis do ponto de vista de consumo de água.”
À frente do projeto das minifábricas de chips, Marcelo Zuffo afirma que um dos maiores desafios não está apenas na tecnologia, mas na expectativa em torno do projeto. Diretor do InovaUSP, ele compara o grau de complexidade de implantar uma fábrica inédita no país a uma missão espacial. “Nós estamos, guardadas as proporções, lançando um foguete para a Marte.”
(Com informações de Tilt Uol)
(Foto: Reprodução/Escola Politécnica/Divulgação)