Pesquisas indicam que o cérebro mantém a capacidade se adaptar e que mudanças na rotina podem influenciar memória e concentração ao longo do tempo
Saúde do cérebro – Esquecer por que entrou em um cômodo, perder o fio de uma conversa ou levar mais tempo para se concentrar são situações que podem se tornar mais frequentes durante a meia-idade. Esses sinais, porém, não significam necessariamente que a perda de capacidade cerebral seja inevitável.
Pesquisas indicam que o cérebro continua capaz de se adaptar durante a vida adulta. Essa característica, conhecida como neuroplasticidade, permite que o órgão aprenda, reorganize conexões e modifique determinadas estruturas e funções mesmo depois da juventude.
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Isso não significa que qualquer dano cerebral possa ser revertido ou que mudanças de hábito sejam capazes de produzir uma recuperação completa. Os efeitos dependem do tipo, da intensidade e da duração de cada problema. Ainda assim, estudos indicam que algumas alterações positivas podem começar em poucas semanas e continuar durante meses.
Álcool está entre os fatores estudados
O consumo de álcool é um dos exemplos mais pesquisados quando o assunto é alteração cerebral. O consumo elevado e prolongado está associado a mudanças no cérebro, incluindo a redução do volume do hipocampo, estrutura importante para processos relacionados à memória.
O cenário pode mudar após a interrupção do consumo. Estudos indicam que alguns mecanismos de recuperação podem começar relativamente cedo e continuar durante seis a 12 meses ou até mais.
Uma revisão envolvendo pessoas com transtorno por uso de álcool encontrou, após sete meses de abstinência, aumento significativo da espessura cortical em 25 das 34 regiões analisadas.
Há, no entanto, uma ressalva importante. Pessoas com dependência alcoólica não devem interromper o consumo abruptamente sem orientação profissional, pois a abstinência pode apresentar riscos.
Exercícios também podem beneficiar o cérebro
A atividade física aparece como outro possível fator de proteção e estímulo à saúde cerebral.
Em um estudo com 120 adultos mais velhos e sedentários, os participantes foram divididos entre um grupo que praticava exercícios aeróbicos e outro que realizava alongamentos e exercícios de tonificação. Depois de um ano, o grupo que fez exercícios aeróbicos apresentou aumento de aproximadamente 2% no volume do hipocampo.
Os pesquisadores estimaram que essa alteração poderia representar uma recuperação equivalente a cerca de um ou dois anos de redução relacionada ao envelhecimento.
Uma possível explicação está no aumento do fluxo sanguíneo provocado pelos exercícios cardiovasculares. Com uma circulação maior, o cérebro recebe mais oxigênio e nutrientes.
A atividade física, porém, não precisa se limitar à caminhada, corrida ou bicicleta. Estudos também associam o treinamento de força regular a níveis mais elevados de BDNF, proteína envolvida em processos de neuroplasticidade. Também foram observadas relações com a conectividade funcional e determinados aspectos da memória.
Assim, movimentar o corpo pode produzir efeitos que vão além da saúde cardiovascular e da manutenção da massa muscular.
Aprender novas habilidades pode estimular o cérebro
Manter-se intelectualmente ativo é outra estratégia investigada pela ciência. Aprender um idioma, começar a tocar um instrumento ou desenvolver uma habilidade desconhecida exige atenção, memória e adaptação constante.
Uma recomendação apresentada por especialistas é reservar cerca de 20 a 30 minutos, três ou quatro vezes por semana, para uma atividade que a pessoa ainda não domine. A proposta é mais do que ocupar o tempo: trata-se de colocar o cérebro diante de um desafio real.
Pesquisas já identificaram mudanças em regiões relacionadas à memória após períodos relativamente curtos de aprendizagem intensa. Um estudo com estudantes de Medicina, por exemplo, observou alterações no volume de uma área do hipocampo entre avaliações realizadas antes e depois de uma fase de preparação para provas.
Os resultados sugerem que o cérebro pode responder fisicamente à experiência de aprender mesmo durante a idade adulta.
Abandonar o cigarro pode desacelerar algumas perdas
O tabagismo também está relacionado a alterações no cérebro. O cigarro afeta os vasos sanguíneos responsáveis por transportar oxigênio e nutrientes ao órgão e está associado a processos de inflamação e estresse oxidativo.
Análises de dados do UK Biobank encontraram uma forte associação entre o histórico de fumar diariamente e um menor volume cerebral. Abandonar o hábito, entretanto, pode modificar essa trajetória.
Pesquisas indicam que alguns efeitos neuroquímicos associados ao tabagismo crônico podem começar a se aproximar dos níveis observados em não fumantes durante as semanas e os meses seguintes à interrupção.
Um estudo publicado em 2025, que envolveu mais de 9.000 fumantes com 40 anos ou mais, encontrou ainda uma diferença importante. As pessoas que haviam parado de fumar apresentaram uma redução mais lenta da memória e da fluência verbal nos anos seguintes em comparação com aquelas que continuaram fumando.
Alimentação também pode influenciar a saúde cerebral
A dieta completa o conjunto de hábitos investigados. Entre os padrões alimentares que despertam interesse está a dieta MIND, que reúne características das dietas mediterrânea e DASH.
O modelo prioriza verduras, frutas vermelhas, cereais integrais, leguminosas, castanhas e peixes ricos em gordura. Ao mesmo tempo, recomenda limitar o consumo de carne vermelha e alimentos ultraprocessados.
Em um ensaio com 37 mulheres com obesidade, três meses seguindo esse padrão foram associados a melhorias em memória, reconhecimento verbal e atenção. Os pesquisadores também observaram aumento no volume de uma região do lobo frontal relacionada à linguagem e ao controle dos impulsos.
Não existe fórmula para “rejuvenescer” o cérebro
Os resultados desses estudos não significam que seja possível simplesmente “rejuvenescer” o cérebro. A ciência é mais cautelosa em relação a essa possibilidade.
O que as pesquisas sugerem é que o cérebro adulto continua capaz de responder ao ambiente e aos hábitos. Mesmo durante a meia-idade, algumas mudanças na rotina podem influenciar processos relacionados à plasticidade e à preservação cerebral.
Exercitar-se, aprender novas habilidades, abandonar o cigarro, moderar ou interromper o consumo de álcool quando indicado e adotar uma alimentação de melhor qualidade estão entre as escolhas estudadas nesse contexto.
A principal descoberta, portanto, não é a existência de uma fórmula para recuperar um cérebro jovem, mas uma conclusão mais realista: as escolhas feitas hoje ainda podem influenciar a trajetória do cérebro nos próximos anos.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific/kues1/Imagem gerada com IA)