Tecnologia já permite reproduzir vozes e personalidades de pessoas falecidas, mas levanta questões sobre luto, privacidade e os limites da recriação digital

Conversar com pessoas mortas – A possibilidade de conversar novamente com alguém que já morreu deixou de ser apenas um elemento da ficção científica. Com o avanço da inteligência artificial, empresas e pesquisadores passaram a desenvolver sistemas capazes de reproduzir características de pessoas falecidas a partir dos rastros digitais deixados por elas.

A tecnologia permite criar desde chatbots que imitam a maneira de escrever de alguém até sistemas capazes de reproduzir sua voz e aparência. O avanço, porém, também abre uma série de discussões sobre os impactos emocionais da prática e sobre quem deve ter o direito de decidir como uma pessoa será representada depois da morte.

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IA começa a recriar pessoas que já morreram

A ideia de manter algum tipo de contato com pessoas após a morte existe há séculos na literatura, na religião e na cultura popular. A inteligência artificial, entretanto, começou a transformar essa ideia em uma possibilidade tecnológica.

Os chamados thanabots, ou “robôs do luto”, são sistemas desenvolvidos para reproduzir características e padrões de comportamento de pessoas falecidas. Para isso, podem utilizar mensagens, e-mails, publicações em redes sociais, gravações de voz, fotos e vídeos deixados ao longo da vida.

Com esses dados, a IA cria um chatbot capaz de responder perguntas, manter conversas e reproduzir o estilo de comunicação de determinada pessoa. Em algumas plataformas, a experiência também inclui a reprodução da voz e a criação de avatares tridimensionais.

A proposta remete diretamente a um dos episódios mais conhecidos da famosa série de ficção, Black Mirror. Na história, uma mulher que perdeu o companheiro passa a interagir com uma inteligência artificial criada a partir dos registros digitais dele. O conceito, que parecia distante, hoje encontra aplicações semelhantes no mundo real.

Isso é possível porque os rastros digitais acumulados ao longo da vida podem revelar uma quantidade significativa de informações sobre uma pessoa. Conversas, áudios, vídeos, fotografias e interações nas redes sociais formam um conjunto de dados que pode ser analisado por sistemas de IA para reproduzir padrões de linguagem e comportamento.

Como funcionam os “robôs do luto”

Os sistemas não criam uma personalidade completamente nova. Eles são treinados com informações produzidas pela própria pessoa durante a vida.

Uma das experiências mais conhecidas ocorreu quando a fundadora da plataforma Replika utilizou mensagens de um amigo falecido para desenvolver um chatbot capaz de conversar de maneira semelhante à dele. A experiência demonstrou que a tecnologia conseguia reproduzir expressões, senso de humor e características da escrita com elevado grau de fidelidade.

O interesse comercial pelo conceito também cresceu. Em 2020, a Microsoft registrou uma patente para a criação de chatbots baseados em pessoas específicas. O projeto prevê o uso de mensagens, imagens, voz e outros arquivos pessoais e inclui a possibilidade de recriar indivíduos que já morreram.

Empresas especializadas passaram a oferecer serviços semelhantes mediante assinatura. Algumas cobravam algumas centenas de dólares para preservar histórias de vida em formatos interativos. Outras chegaram a desenvolver avatares digitais sofisticados por valores superiores a dezenas de milhares de dólares.

A ideia é transformar arquivos que normalmente seriam apenas lembranças, como fotografias, cartas e gravações, em uma representação digital capaz de interagir continuamente com familiares e amigos.

Quando a lembrança passa a responder

A preservação de lembranças é uma parte comum do processo de luto. Objetos pessoais, fotografias, receitas e gravações podem ajudar a manter viva a memória de alguém. Os thanabots, porém, introduzem uma diferença fundamental: eles não apenas preservam uma lembrança, mas também produzem novas interações.

Uma representação digital pode falar na primeira pessoa, dizer frases como “eu me lembro” e “sinto sua falta” e responder a perguntas que nunca foram feitas enquanto aquela pessoa estava viva. Dessa maneira, a tecnologia pode criar a sensação de continuidade da presença.

É justamente nesse ponto que surgem algumas das principais questões envolvendo a tecnologia. Psicólogos afirmam que manter vínculos simbólicos com pessoas que morreram pode ser saudável, mas uma inteligência artificial acrescenta uma característica inédita: o sistema continua criando respostas depois da morte.

Existe ainda o risco de a IA produzir afirmações que a pessoa jamais faria em vida. Embora o sistema seja treinado com informações reais, suas respostas são geradas a partir da interpretação de padrões e podem incluir conteúdos inéditos.

Um episódio que chamou atenção envolveu a família de um jovem vítima do massacre de Parkland, nos Estados Unidos. Os familiares autorizaram a criação de um avatar baseado em inteligência artificial. O personagem respondeu perguntas de um jornalista usando a voz do rapaz e comentou assuntos que nunca haviam sido discutidos publicamente por ele.

O caso expõe uma das questões mais complexas envolvendo os chamados “robôs do luto”: quem pode autorizar a recriação digital de uma pessoa? A decisão deveria caber aos pais, filhos ou cônjuges? Ou a própria pessoa deveria deixar instruções sobre isso antes de morrer?

O que acontece com a versão digital depois?

As preocupações não se limitam ao campo emocional. Os avatares digitais também dependem de empresas, servidores e modelos de negócio para continuar funcionando.

Uma atualização de software, por exemplo, pode modificar a maneira como o chatbot se comunica, como interpreta determinados assuntos ou até como se lembra de acontecimentos. Arquivos adicionais enviados pela família também podem alterar a personalidade da representação digital.

Na prática, isso significa que a recriação deixa de ser apenas um arquivo preservado e passa a funcionar como uma interpretação da pessoa construída e modificada por algoritmos.

Especialistas em ética digital também chamam atenção para uma nova dimensão do conceito de morte. Além da morte biológica e do desaparecimento gradual das lembranças, surge a possibilidade de uma espécie de “morte digital”, que ocorreria quando o serviço fosse encerrado, a empresa deixasse de operar ou a assinatura não fosse mais paga.

A tecnologia, portanto, já tornou possível conversar com representações digitais de pessoas que morreram. Mas, ao transformar lembranças em sistemas capazes de responder, a inteligência artificial também cria uma discussão que ultrapassa os limites tecnológicos: até onde uma voz produzida por algoritmos consegue preservar a essência de alguém que não está mais presente?

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(Com informações de Gizmodo)

(Foto: Reprodução/Imagem gerada com IA)