Estudo mostra que o trabalho doméstico e de cuidado ocupa 90% das jovens e limita oportunidades de emprego, estudo, descanso e lazer

Jovens brasileiras – A divisão desigual do trabalho doméstico e de cuidado afeta a rotina das brasileiras desde a adolescência. Pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família (SNCF), mostra que metade das jovens passa a acumular duas ou três jornadas a partir dos 18 anos.

O levantamento considera a combinação entre estudos, trabalho remunerado e atividades domésticas ou de cuidado. Os resultados foram elaborados com base nos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Anual (PNAD Contínua) de 2022.

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Além de evidenciar a sobrecarga feminina, o estudo aponta que as jovens negras são as mais afetadas pelas responsabilidades dentro de casa. Entre elas, 33% não estão inseridas no mercado de trabalho nem frequentam instituições de ensino.

Trabalho de cuidado faz parte da rotina de 90% das jovens

As atividades de cuidado abrangem tarefas fundamentais para a manutenção da vida cotidiana. Apesar de essenciais, essas funções permaneceram socialmente invisibilizadas por muito tempo e continuam sendo realizadas, em sua maioria, sem remuneração.

“Cuidar e organizar a casa, fazer comida, lavar roupa, cuidar de um bebê, cuidar de uma pessoa idosa que não consegue mais se alimentar sozinha, tomar banho sozinha, se movimentar pela casa. É um trabalho que durante muito tempo permaneceu invisível”, explica a secretária nacional da Política de Cuidados e Família, órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Laís Wendel Abramo.

Entre jovens homens e mulheres, 82,5% desempenham algum tipo de trabalho doméstico ou de cuidado. Quando são consideradas apenas as mulheres de 15 a 29 anos, o índice chega a 90%.

A desigualdade também aparece na quantidade de horas destinadas às tarefas. Segundo a pesquisa, as mulheres negras dedicam aos cuidados o dobro do tempo registrado entre os homens, independentemente de eles serem brancos ou negros.

Sobrecarga dificulta acesso ao emprego e à educação

O volume de responsabilidades domésticas pode limitar o tempo disponível para procurar emprego, estudar, descansar ou participar de atividades culturais e de lazer.

Segundo Laís Abramo, em cada três mulheres que estão fora do mercado de trabalho afirma não procurar uma ocupação remunerada porque precisa cuidar da casa, dos filhos ou de outros familiares.

Esse cenário ajuda a explicar por que um terço das jovens negras não trabalha nem estuda. O levantamento indica que essas mulheres não estão necessariamente desocupadas, mas envolvidas em atividades não remuneradas que não costumam aparecer nas estatísticas tradicionais sobre trabalho.

O estudo também aponta que fatores culturais ainda atribuem às mulheres a principal responsabilidade pela organização da casa e pelo cuidado com outras pessoas.

Horas de trabalho doméstico aumentam na vida adulta

A diferença entre homens e mulheres se amplia com a chegada da vida adulta. Entre as jovens, o tempo semanal dedicado ao trabalho doméstico e de cuidado aumenta, em média, dez horas em relação à adolescência. Entre os homens, o crescimento é de apenas três horas semanais.

Os números demonstram que a transição para a vida adulta representa uma elevação muito mais intensa da carga de trabalho não remunerado para as mulheres. Essa realidade pode comprometer oportunidades profissionais e educacionais e reforçar desigualdades já existentes.

Dupla e tripla jornada mudam conforme a idade

Entre as adolescentes de 15 a 17 anos, 78,4% conciliam os estudos com atividades domésticas ou de cuidado. Dentro dessa faixa etária, 8,1% também exercem trabalho remunerado, formando uma tripla jornada.

Dos 18 aos 24 anos, 28,7% estudam e realizam tarefas domésticas ou de cuidado. Ao mesmo tempo, o percentual das que acumulam estudos, emprego e cuidados sobe para 13,1%.

Na faixa dos 25 aos 29 anos, 57,4% conciliam trabalho remunerado com atividades domésticas ou de cuidado. A tripla jornada representa 9,7%, enquanto 14% mantêm a combinação entre estudos e cuidados.

Os dados revelam que o acúmulo de responsabilidades acompanha as mulheres durante diferentes etapas da vida, embora a composição das jornadas seja alterada conforme avançam a idade e a inserção no mercado de trabalho.

Trabalho não remunerado muda interpretação sobre jovens “nem-nem”

Mais de 9 milhões de brasileiros são classificados como jovens que não estudam nem possuem trabalho remunerado. Entretanto, a pesquisa questiona o uso dessa definição quando o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado é desconsiderado.

Ao incluir essas atividades na análise, apenas 2% das jovens aparecem sem desempenhar trabalho remunerado, estudar ou realizar alguma tarefa doméstica e de cuidado.

O resultado demonstra que muitas mulheres classificadas como “nem-nem” estão, na realidade, trabalhando dentro de casa, ainda que essas tarefas não sejam remuneradas ou reconhecidas formalmente.

Excesso de jornadas afeta saúde física e mental

A sobrecarga também pode provocar consequências para a saúde física e emocional das jovens. O estudo chama a atenção para uma percepção social segundo a qual pessoas mais novas teriam maior capacidade de suportar jornadas extensas, trabalhos desgastantes e pouco tempo de descanso.

Essa visão contribui para a normalização de rotinas exaustivas, como as enfrentadas por jovens que trabalham durante muitas horas no comércio, em supermercados, farmácias, serviços ou plataformas digitais.

Para o coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, André Sobrinho, o cansaço da juventude está relacionado ao acúmulo de jornadas, e o crescimento da mobilização pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6×1 são expressões de indignação sobre essa realidade.

“A juventude está cansada. Não é à toa a luta pelo fim da escala 6×1, que é muito impulsionada por jovens que ocupam postos em supermercados, em farmácias, no comércio e no serviço”, afirma.

(Com informações de Folha de S.Paulo)
(Foto: Reprodução/Maginific/drobotdean)