Sistemas de armazenamento ganham espaço para aproveitar melhor a energia solar e eólica, mas precisam ser coordenados para não aumentar a demanda justamente nos períodos mais delicados
Rede elétrica – A Europa acelera a instalação de sistemas de armazenamento para aproveitar melhor a geração solar e eólica. Com milhares de baterias conectadas ao sistema, porém, os operadores precisam lidar com um novo risco: equipamentos que deveriam dar mais flexibilidade à rede podem agir simultaneamente e aumentar a pressão sobre ela em momentos críticos.
As baterias estão mudando a forma como a Europa usa energia renovável.
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O avanço da geração solar e eólica trouxe um desafio que não pode ser solucionado apenas com a construção de novas usinas. A produção solar desaparece durante a noite, enquanto a geração eólica pode cair justamente em períodos de maior consumo.
É nesse contexto que entram os sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos pela sigla BESS.
Quando a produção de eletricidade está elevada, esses equipamentos conseguem absorver o excedente e mantê-lo armazenado. Posteriormente, quando a demanda aumenta ou a geração renovável diminui, a energia acumulada pode ser devolvida ao sistema.
A expansão desse mercado já ocorre em velocidade significativa. Em 2025, a Europa acrescentou aproximadamente 36 GWh de nova capacidade, alta de 48% em comparação com o ano anterior. Pela primeira vez, o continente ultrapassou a marca de 100 GWh de armazenamento em operação.
Os grandes projetos conectados diretamente à rede representaram mais da metade das novas instalações registradas naquele ano.
Os benefícios são claros. O armazenamento permite utilizar uma parcela maior da eletricidade produzida por fontes renováveis e diminui o desperdício em períodos de geração excessiva, quando a abundância de energia pode fazer os preços chegarem a valores negativos.
Estimativas da Ember indicam que, até 2030, a produção europeia de energia solar e eólica poderá superar a demanda doméstica em determinados momentos. Ao longo de um ano, esse excedente poderia chegar a 183 TWh.
Além de melhorar o aproveitamento das fontes renováveis, esse cenário poderia gerar economia e diminuir a necessidade de recorrer ao gás natural para complementar o fornecimento.
O problema é que a expansão do armazenamento cria uma dúvida: o que acontece quando milhares de baterias respondem ao mesmo tempo aos mesmos sinais do mercado?
O momento mais delicado pode ser justamente quando a rede pede ajuda
Um alerta sobre essa possibilidade surgiu no Reino Unido. O Panel of Technical Experts, responsável por revisar análises relacionadas à segurança do fornecimento de eletricidade, avaliou um cenário envolvendo baterias que participam do mercado de capacidade.
Em uma situação na qual os operadores identificam a possibilidade de falta de eletricidade, pode ser emitido um aviso chamado Capacity Market Notice. Para determinados sistemas de armazenamento, esse sinal pode indicar a necessidade de garantir que as baterias estejam carregadas o suficiente para fornecer energia caso sejam acionadas durante um período de estresse da rede.
Isso pode levar alguns operadores a antecipar o carregamento de seus equipamentos antes que a situação fique mais crítica.
Considerado isoladamente, esse comportamento não representa necessariamente um problema. A dificuldade surge quando milhares de baterias recebem o mesmo incentivo e adotam uma estratégia semelhante praticamente de forma simultânea.
Nesse caso, em vez de aliviar a pressão sobre o sistema, os equipamentos poderiam elevar temporariamente o consumo de eletricidade, já que estariam retirando energia da rede para recompor suas reservas.
Surge, assim, um paradoxo: uma tecnologia criada para aumentar a flexibilidade e a segurança do sistema pode, em determinadas circunstâncias, provocar um aumento da demanda justamente antes de um período de maior tensão.
O relatório britânico não aponta esse comportamento como causa de apagões já registrados e não defende que a expansão dos sistemas de armazenamento seja interrompida.
A preocupação apresentada é mais pontual: os modelos usados pelos operadores precisam levar em conta esse consumo adicional e considerar também como milhares de dispositivos podem se comportar quando respondem simultaneamente aos mesmos estímulos.
O desafio agora é fazer milhares de baterias funcionarem como uma só
A complexidade aumenta quando se observa a diversidade de proprietários desses equipamentos.
Parte das baterias está concentrada em grandes empreendimentos conectados diretamente à rede. Outras estão distribuídas entre residências, empresas e instalações menores. Cada sistema pode responder de maneira própria às condições do mercado e aos sinais recebidos.
Para quem administra a rede elétrica, entretanto, o que realmente importa é o resultado da soma dessas decisões individuais.
Uma alternativa para lidar com essa questão está nos agregadores e nas chamadas centrais elétricas virtuais. Essas estruturas permitem reunir diferentes baterias e coordenar seus ciclos de carregamento e descarregamento como se fossem uma única unidade de armazenamento de grande porte.
Com essa coordenação, os sistemas podem absorver eletricidade nos momentos de excesso e devolvê-la quando a demanda aumenta. Mais importante, podem evitar que milhares de equipamentos adotem simultaneamente uma estratégia capaz de comprometer o equilíbrio da rede.
A expansão do armazenamento na Europa ainda deve continuar. A SolarPower Europe estima que as novas instalações anuais possam superar 50 GWh em 2026 e alcançar 138 GWh em 2030.
Diante desse crescimento, o desafio europeu não será apenas instalar baterias em quantidade suficiente. Será necessário também garantir que elas sejam coordenadas de maneira eficiente.
À medida que mais sistemas forem conectados, ganhará importância a capacidade de prever quando cada bateria irá carregar ou descarregar e, principalmente, qual será o impacto conjunto dessas decisões sobre a rede elétrica.
No futuro, portanto, o sucesso do armazenamento europeu pode depender menos da quantidade de baterias disponíveis e mais da capacidade de coordená-las para que, nos momentos necessários, milhões de equipamentos funcionem como uma única e gigantesca central elétrica.
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(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Magnific/marozhkastudio)