Executivos e críticos divergem sobre pedidos de desaceleração feitos por empresas como Anthropic e OpenAI
Segurança da IA – A possibilidade de reduzir o ritmo de desenvolvimento da inteligência artificial enfrenta resistência nos Estados Unidos diante de um argumento central: uma desaceleração das empresas americanas poderia abrir espaço para concorrentes, inclusive os adversários internacionais do país.
A preocupação apareceu de forma explícita no domingo, quando o senador republicano John Cornyn, do Texas, afirmou que as próprias empresas de tecnologia podem decidir desacelerar seus produtos, mas dificilmente conseguiriam fazer isso sem que seus concorrentes adotassem a mesma postura.
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“Se os desenvolvedores de IA quiserem desacelerar o desenvolvimento de seus produtos, são livres para fazê-lo”, afirmou Cornyn em uma publicação nas redes sociais. “Uma coisa é certa: seus concorrentes não farão isso, incluindo os adversários de nosso país.”
A posição ajuda a explicar por que, apesar de reconhecerem parte das preocupações relacionadas à segurança da IA, parlamentares em Washington demonstram resistência a novas medidas regulatórias.
O presidente Donald Trump também colocou a disputa tecnológica com a China no centro da discussão. Durante uma entrevista coletiva no domingo, na Irlanda, Trump afirmou que os Estados Unidos estavam “à frente da China em IA” e que queria “manter essa posição”.
“Podemos estabelecer salvaguardas, podemos fazer isto e aquilo, mas acho que há muitas forças negativas levantando essa questão”, disse Trump. “Elas estão falando de coisas que não vão acontecer, mas quem vencer na IA vence.”
Regulamentação sob suspeita
No Vale do Silício, a resistência às propostas de desaceleração não se limita à preocupação com a competição internacional. Parte dos executivos e investidores questiona se as próprias empresas que pedem mais controle sobre o setor não seriam beneficiadas pelas regras.
O argumento é que exigências mais rigorosas poderiam elevar os custos de desenvolvimento e dificultar a atuação de empresas menores ou de novos concorrentes, fortalecendo os laboratórios que já ocupam posições dominantes.
David Sacks, assessor de tecnologia de Trump e ex-responsável da Casa Branca por IA e criptomoedas, foi um dos críticos mais diretos dessa possibilidade.
“Parem de fingir que a motivação para desacelerar é puramente altruísta”, afirmou Sacks em uma publicação nas redes sociais.
Sacks, crítico frequente de Dario Amodei, também questionou por que os laboratórios precisariam do governo para interromper ou reduzir o ritmo de seus próprios projetos. A crítica ganha força, segundo ele, diante da ambição dessas empresas de desenvolver a chamada superinteligência, uma IA muito mais inteligente que os seres humanos.
“A maneira mais fácil de não criar uma superinteligência é vocês concordarem em não criá-la”, acrescentou. “Exigir a adoção do modelo regulatório de sua preferência como condição para isso parecerá uma chantagem contra o público e o sistema político.”
A possibilidade de concentração também foi levantada por Aidan Gomez, CEO da startup canadense de IA Cohere.
“Um pequeno grupo de empresas de IA do Vale do Silício, selecionadas e dominantes no mercado, deveria ter o direito de definir as regras e os padrões de segurança de uma tecnologia que marcará uma geração para o mundo inteiro?”, questionou Gomez no domingo.
“Esses oligopólios agora pedem que as regras de concorrência sejam flexibilizadas e que lhes seja permitido ditar as condições para os demais”, acrescentou no texto. “Um lobo em pele de cordeiro, um cartel, seja qual for o nome.”
Quem define os padrões de segurança
A discussão sobre quem deve estabelecer os critérios para o desenvolvimento da IA ganhou força depois que Dario Amodei, CEO da Anthropic, defendeu novas medidas de controle.
No sábado (12), Amodei afirmou que a tecnologia estava avançando em uma velocidade maior do que a capacidade dos pesquisadores de desenvolvê-la com segurança. Entre suas propostas estão a atuação de auditores independentes para monitorar o trabalho de segurança dos laboratórios e a possibilidade de órgãos reguladores autorizarem as empresas a trabalhar conjuntamente na definição de padrões.
A proposta encontrou apoio, em diferentes graus, entre outros nomes importantes da indústria.
Sam Altman, CEO da OpenAI; Elon Musk, CEO da SpaceX; e Demis Hassabis, presidente do Google DeepMind, disseram concordar com a necessidade de um ritmo mais lento para o desenvolvimento da tecnologia, embora tenham apresentado diferenças sobre o que deveria ser feito.
Satya Nadella, CEO da Microsoft, também afirmou no domingo que sua empresa apoiava algumas das medidas apresentadas por Amodei, incluindo a utilização de auditores independentes.
A Microsoft também defendeu “esforços mais amplos para desenvolver mecanismos que façam disso algo além de mera retórica”.
“Também precisamos acelerar e disseminar os benefícios da IA, para serem amplamente distribuídos entre países, comunidades e empresas”, disse Nadella. “O fundamental é que isso não pode ser controlado por um pequeno grupo de entidades, mas deve contar com ampla representatividade”, acrescentou.
É justamente nesse ponto que as propostas de Amodei enfrentam uma das principais contestações. O CEO da Anthropic sugeriu que os produtos de IA fossem submetidos ao escrutínio de “avaliadores integrados” de organizações terceirizadas.
Os críticos, porém, questionaram a proximidade entre a Anthropic e duas organizações sem fins lucrativos mencionadas por Amodei: METR e Redwood Research.
“Se vamos regulamentar, não pode ser ninguém que eles conheçam, e eles não podem redigir as regras”, disse Bill Gurley, investidor de capital de risco e crítico ferrenho das principais empresas de IA.
Segurança também virou mercado
A suspeita de que os alertas sobre riscos possam estar ligados a interesses comerciais antecede a atual discussão sobre desaceleração.
Na semana passada, durante uma conferência em San Francisco, Jensen Huang, CEO da Nvidia, afirmou que os laboratórios de inteligência artificial estavam enfatizando questões de segurança porque planejavam lançar produtos de cibersegurança.
“Que maneira melhor de criar demanda do que criar um problema? Quem não gostaria que seu mercado ficasse histérico com seu produto e formasse filas virando a esquina para comprá-lo?”, afirmou Huang.
A Nvidia, que atua no fornecimento de tecnologia utilizada no desenvolvimento de IA, concordou no início deste mês em comprar a Hugging Face por US$ 12,9 bilhões.
A empresa canadense também entrou no debate depois de ser atingida pela tecnologia da OpenAI. No sábado, Clément Delangue, CEO da Hugging Face, afirmou nas redes sociais que a segurança da inteligência artificial não deveria ser decidida exclusivamente pelas empresas que lideram o setor.
Segundo Delangue, a segurança da IA não seria “resolvida a portas fechadas por um pequeno grupo de laboratórios de ponta”.
O avanço da tecnologia aumenta a pressão
As discussões ocorrem em um momento em que novos episódios envolvendo sistemas de IA ampliaram as preocupações sobre segurança.
Nas últimas semanas, surgiram detalhes sobre o comportamento de uma IA da OpenAI, principal concorrente da Anthropic, que agiu por conta própria e invadiu outra empresa.
Também recentemente, um dos próprios funcionários de Amodei deixou o cargo e iniciou uma campanha pública para chamar atenção para os riscos associados ao desenvolvimento da tecnologia.
Os alertas não são uma novidade entre executivos e funcionários dos laboratórios de IA. Há anos, integrantes dessas empresas estão entre as pessoas mais preocupadas com a segurança da tecnologia. Eles frequentemente argumentam que o avanço da IA é inevitável e que os próprios laboratórios estão entre os grupos mais capacitados para desenvolvê-la de maneira segura.
Essa posição, contudo, também é alvo de críticas.
Para os opositores das propostas de desaceleração, existe uma contradição entre defender que o avanço da IA é inevitável, afirmar que os laboratórios são os mais preparados para conduzi-lo e, ao mesmo tempo, pedir regras que podem limitar a atuação de concorrentes.
O debate, portanto, ultrapassa a questão de qual deve ser a velocidade de desenvolvimento da inteligência artificial. Ele envolve também quem terá poder para definir os padrões de segurança, quais empresas estarão sujeitas a essas regras e se uma intervenção do governo protegerá o público ou consolidará a posição dos atuais líderes do mercado.
Enquanto empresas, investidores e autoridades divergem sobre essas questões, Washington permanece cauteloso diante de novas regulações. Para os críticos da desaceleração, o risco de perder a corrida tecnológica, especialmente para a China, pesa tanto quanto as preocupações relacionadas à segurança.
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(Com informações de Folha de S. Paulo)
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