Projeto usa física quântica e fibras ópticas já instaladas para proteger transmissões contra invasões invisíveis
Brasil cria rede quântica – Durante muito tempo, a chamada internet quântica foi vista como uma tecnologia distante, associada apenas a laboratórios altamente especializados e grandes potências mundiais. Mas pesquisadores brasileiros começaram a mudar esse cenário ao transformar fibras ópticas comuns em uma rede experimental capaz de detectar tentativas de espionagem digital quase instantaneamente.
O projeto está em funcionamento no Recife e integra a chamada Rede Quântica Recife (RQR), desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco. A iniciativa utiliza princípios da mecânica quântica para criar transmissões de dados altamente protegidas contra interceptações e ataques virtuais.
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A tecnologia empregada recebe o nome de Distribuição de Chaves Quânticas, conhecida internacionalmente pela sigla QKD. Em vez de depender exclusivamente de métodos matemáticos tradicionais para proteger informações, o sistema usa partículas de luz (fótons) para gerar chaves criptográficas extremamente seguras.
O diferencial está justamente no comportamento quântico dessas partículas. Segundo os pesquisadores, qualquer tentativa de interceptação altera imediatamente o estado físico dos fótons utilizados na transmissão.
Na prática, isso impede que invasores espionem os dados de forma invisível. Qualquer tentativa de acesso deixa sinais detectáveis pelo sistema quase em tempo real, mudando a lógica tradicional da segurança digital.
Um dos aspectos mais relevantes do projeto é que ele não exigiu a criação de uma nova infraestrutura urbana. Os cientistas aproveitaram fibras ópticas já existentes no Recife, mas que estavam sem utilização, conhecidas como “dark fibers”.
Com isso, foi possível implantar a rede sem necessidade de novas obras ou instalação adicional de cabos pela cidade.
Os primeiros testes conectaram pontos entre a Universidade Federal de Pernambuco e a Universidade Federal Rural de Pernambuco, em um trajeto de aproximadamente sete quilômetros. A próxima etapa prevê ampliar o alcance da rede para cerca de 40 quilômetros.
O projeto é coordenado pelo professor Daniel Felinto e reúne especialistas em física, engenharia e computação ligados ao Instituto de Tecnologias Quânticas (Quanta), instalado no ParqueTec da UFPE.
Para os pesquisadores, o fato de o sistema já operar fora de ambientes controlados representa um avanço importante. Tecnologias quânticas costumam ser extremamente sensíveis a vibrações, mudanças ambientais e interferências externas, o que torna aplicações urbanas muito mais complexas do que experimentos de laboratório.
A corrida internacional pela comunicação quântica ganhou importância estratégica nos últimos anos. Especialistas acreditam que essas tecnologias poderão proteger setores críticos, como bancos, sistemas militares, redes elétricas, telecomunicações e centros de dados sensíveis.
A preocupação cresce porque computadores cada vez mais avançados podem ameaçar os métodos atuais de criptografia usados na internet. A computação quântica, por exemplo, possui potencial teórico para quebrar sistemas criptográficos tradicionais muito mais rapidamente do que máquinas convencionais.
Diante desse cenário, países passaram a investir simultaneamente em tecnologias quânticas voltadas tanto para defesa quanto para ataques cibernéticos. O domínio de sistemas de comunicação quântica é visto como uma possível vantagem estratégica nas próximas décadas.
No Brasil, o projeto recebeu apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, permitindo que a rede experimental fosse instalada em ambiente urbano real.
Embora China, Estados Unidos e países da União Europeia estejam mais avançados na corrida quântica global, pesquisadores brasileiros tentam garantir espaço nesse setor estratégico.
A iniciativa ganhou reconhecimento em 2025 ao receber o Prêmio Finep de Inovação da Região Nordeste na categoria Infraestrutura de Pesquisa e Desenvolvimento. Para os especialistas envolvidos, porém, o impacto da tecnologia vai além do reconhecimento acadêmico.
A expectativa é que a experiência ajude a abrir caminho para uma futura internet quântica brasileira e estimule o surgimento de empresas de alta tecnologia ligadas ao setor.
Além do aspecto técnico, os pesquisadores destacam o valor simbólico do projeto. Tecnologias quânticas sempre foram associadas às maiores potências científicas do planeta. Agora, parte dessa transformação começa a acontecer também sob as ruas de cidades brasileiras, de forma invisível para a maioria da população, mas potencialmente decisiva para o futuro da segurança digital global.
(Com informações de Gizmodo)
(Foto: Reprodução/Sociedade Militar)